quarta-feira, 9 de março de 2011

Sr. Tempo (Mr. Time)

PAULO DE TARCIO
"Depressa: o tempo foge e arrasta-nos consigo: o momento em que falo já está longe de mim." (Boileau , Nicolas)

Sempre gostei muito de admirar tudo que vejo ao meu redor. A forma como as coisas próximas a nós contribuem para mudar-nos sempre foi um objeto de minha atenção. Há muito tempo eu tento entender tudo, mas, como num jogo, eu sempre pulo algo misterioso e escancarado, paciente e irritado, que dá tirando; algo colossal, ou melhor, paradoxal: o Tempo. Sim. Esse velho amigo-inimigo da humanidade faz parte de muitos episódios de ócio nos quais questiono a sua essência, tentando ganhar tempo com novas descobertas. Mas... essa conclusão já me deixa estupefato com a complexidade da consequência de minhas palavras.
Tal fato se dá quando medito que todos nós sempre buscamos ganhar tempo. No entanto, para que queremos ganhar tempo, se tornaremos a gastá-lo? Qual a razão de planejar, calcular e de tentar domar essa fera violenta, se ela se esvairá como a areia que cai em uma ampulheta (Mas uma ampulheta que não pode ser virada)? O tempo deixa em nós marcas. Marcas que nos provam que apenas tentamos. Temos apenas o vão anseio de possuí-lo, de controlá-lo. Só desejamos. Porém, só desejamos até o momento em que nos olhamos no espelho, o amigo do tempo, o encarregado de mostrar a nós que somos tolos o suficiente para perder tempo tentando ganhar tempo. Tolos de tal maneira que nos deparamos com nossas faces caídas, nossos olhos sem brilho, nossas mãos fatigadas e enrrugadas e, mesmo assim, fingimos entender que o tempo se foi, fingimos a alegria de termos vivido. No final das contas, olhamos para o ser que nos tornamos e nos conformamos em pensar que foi um deslize, que não fizemos um bom uso do tempo e que assim foi perdida a chance de mais diversão, de mais amor, de mais amigos, de mais dinheiro, de mais tempo. Triste engano!
Insistimos  no fato de que não soubemos regrar o tempo. Mas não fomos nós. Foi ele. Ele não se permite ser domado ou controlado pelos meros terráquios mortais: a escória do Universo. O Tempo apenas finge. Mas também corre. Talvez ele seja o pai dos ilusionistas, pois, com maestria, ele engana os tolos que o querem aos pés, os tolos que dominam tudo o que pensam ser superior, mas que não passa de uma fração perante aquele que marca os homens com o selo que lhes provoca mais medo: a morte. Sim, o Tempo nos indica o fim da linha. É ele quem determina a porção de si mesmo que será dada aos mortais, às vezes, até mesmo antes de marcar-nos com as faces caídas, olhos escuros, mãos cansadas. É ele que nos molda quando arranca de nós o que amamos, seja o que for. Somos, então, meros escravos. Submissos à vontade inexorável do Tempo, o Maestro que cadencia nossa vã existência. Submissos àquele que brinca conosco como se fossêmos brinquedos que se desgastam na mão de alguém que sempre esteve e estará ali (E não o somos!?).
O Tempo, que nos consome, que nos destitui do cargo de dominadores e nos rebaixa a fantoches nas mãos da eternidade, é um bricalhão. De vez em quando entediado, mas ele tem a nós para distraí-lo. O Tempo é só algo - talvez alguém - que se dividiu e que se conta. Só para passar o tempo. Mas que preferiu os homens para brincar, porque esse tempo nunca...  nunca (ou sempre?) passará!

NOTA: Dessa vez eu prefiro não anotar nada. As condições em que escrevi tal texto ainda estão, para mim, um tanto quanto 'NEBULOSAS'...